Passarelas Capibaribe

O rio, elemento presente em grande parte das maiores e mais antigas metrópoles do mundo, pode apresentar-se como peça chave para integração, evolução urbana e valorização de fluxos, mas também pode representar um obstáculo, uma ruptura na cidade, a depender do tratamento de suas margens e travessias.

Na curva do Rio Capibaribe localizada entre os bairros Santana, Torre e Jaqueira, na cidade do Recife, percebeu-se a necessidade de intervenções urbanísticas e paisagísticas em dois pontos críticos visando conectar regiões da cidade que atualmente se encontram segregadas pelo próprio rio. O projeto PURA, atualmente em desenvolvimento e execução pela cidade do Recife, tem como objetivo apresentar as margens do rio à população como uma orla de lazer, fluxos, permanência e contemplação, portanto é de suma importância que os novos parques lineares propostos estejam conectados não apenas com os respectivos entornos imediatos, mas também entre si.

Para tanto, são propostas duas novas travessias para pedestres e ciclistas sobre o Rio Capibaribe. A primeira, identificada como Travessia AB, conecta a Praça Compositor Antônio Maria, no bairro Santana, à extremidade oeste da rua Marcos André, no bairro Torre. Uma passarela com faixa exclusiva para ciclistas e outra para pedestres, separadas por um elemento central em concreto com assentos de madeira em diferentes níveis para contemplação das vistas para o Rio Capibaribe, é sustentada por um sistema estrutural de arcos assimétricos alternados em estrutura metálica, com tirantes conectados a uma sequência de vigas metálicas sob a laje principal, que se conectam a uma grande viga metálica central. O guarda-corpo em barras metálicas na cor do zarcão avermelhado, com peitoril em madeira para maior resistência aos efeitos da maresia, protege os ocupantes ao mesmo tempo que marca a horizontalidade da travessia. As fundações são feitas em solo e não dentro d’água, visando minimizar o impacto no bioma local. A escolha dos materiais pré-fabricados visa a redução da geração de resíduos na obra, maior celeridade no processo de construção e maior exatidão das estimativas de custos de execução da obra e aquisição de materiais. A iluminação dos caminhos se dá por perfis LED embutidos sob o corrimão do guarda-corpo, enquanto a iluminação da estrutura se dá por refletores instalados junto à fixação dos cabos atirantados.

Na Cabeceira A, uma arquibancada de contemplação e uma praça com fontes interativas valoriza a vista para o parque linear proposto junto a rua Dr. Saulo Suassuna e a praça Compositor Antônio Maria, incentivando e convidando os seus ocupantes a atravessarem o rio em direção à Cabeceira B. Neste outro lado do rio, no bairro Torre, a generosa área disponibilizada é ocupada por um novo parque composto de quadras esportivas, playground, equipamentos de exercício físico e pontos de encontro e permanência, com pavimentação em piso intertravado drenante. O parque proposto é resultante da percebida carência de amplos espaços públicos de lazer e áreas verdes naquelas proximidades do bairro Torre, predominantemente residencial nos arredores da área destinada à Cabeceira B.

A segunda travessia, identificada como Travessia CD, conecta o parque linear atualmente em projeto pela cidade do Recife, junto ao trecho mais à leste da rua Marcos André, à Avenida Ruy Barbosa e notáveis pontos de interesse como a sede do Conselho Estadual de Educação, a sede da Academia Pernambucana de Letras, uma escola de idiomas e um colégio tradicional de ensino fundamental e médio.

A Cabeceira C, junto à rua Marcos André, consiste em uma ampla arquibancada sombreada em deck de madeira para contemplação do Rio Capibaribe bem como encontros sociais, feiras e pequenas apresentações. O traçado proporciona uma curva marcante em direção ao outro lado do rio para conectar a extremidade da orla proposta ao parque linear do Baobá, na margem oposta. O objetivo é criar um elemento visual marcante que convide e incentive o usuário do parque linear da rua Marcos André a percorrê-lo até o final e atravessar a passarela em direção ao parque do Baobá, e vice versa.
A passarela na travessia CD segue o mesmo sistema estrutural proposto para a travessia AB, com as devidas adequações às proporções do vão reduzido, em um elemento arquitetônico de grande impacto visual que fortalece o convite e incentivo à travessia pelo usuário para conhecer as orlas de lazer e contemplação em ambas margens do rio. Na Cabeceira D, uma pequena praça linear faz a conexão com o parque do Baobá e cria um ponto de encontro e permanência aos usuários e sobretudo aos estudantes da escola de idiomas e do colégio, com bancos, arborização e praça interativa de fontes.

Em resumo, o projeto baseou na análise das quatro cabeceiras e estabeleceu-se uma diretriz principal de projeto para cada uma com base em seus contextos e potenciais. Na Cabeceira A, valorizou-se a vista para o parque linear proposto e a praça existente, convidando seus ocupantes à travessias. Na Cabeceira B, a implementação de um parque em um bairro residencial atualmente carente de amplos espaços públicos de lazer e esporte. Na Cabeceira C, o encabeçamento do projeto para o parque linear em desenvolvimento e continuidade do fluxo ao parque linear existente na margem oposta. E por fim, na Cabeceira D, a implementação de uma praça de convívio e encontro aos estudantes nas proximidades bem como outros ocupantes. Visou-se também minimizar o impacto no bioma ao posicionar as fundações da passarela na parte seca da cabeceira e não dentro do rio, bem como a redução ao mínimo possível do desmatamento da densa arborização existente junto às margens do Rio, mas de forma a ainda possibilitar a implementação de pontos de encontro e contemplação e a desejada passagem de fluxos. E por fim, como elementos centrais de destaque em ambas regiões de intervenção, as passarelas propostas promovem a conexão desejada em um sistema estrutural de ampla eficiência e impacto visual que certamente contribuirá com a valorização das margens do Rio Capibaribe em consonância com os projetos em desenvolvimento pela cidade do Recife.





Local: Recife - PB
Cliente: Prefeitura de Recife
Data do projeto: 18.09.2022
Área do projeto: 5.400,00m²
Equipe: Rodrigo Biavati. Matheus Carvalho, Gabriel Montenegro (autores), Isabella Ghiraldo e Maria Eduarda Azambuja (colaboradores).
Imagens: Matheus Carvalho
Dimensionamento e Projeto Estrutural: Lenildo Santos da Silva

Cliente: Prefeitura Recife
Tipologia: Concurso de Projetos
Construção: 5.400,00m²
Recife/PB – 2022